
Na mão da criança a letra emperrou. Com afinco continuou. Língua de fora - parecia-lhe ajudar ao desenho da letra. O p talvez não estivesse perfeito mas ela sabia que era com aquela letra que se escrevia PALAVRA e a professora dissera-lhe que, com palavras, ela poderia fixar, no papel, os sonhos.
Durante uma parte da tarde a criança desenhou as restantes letras da palavra. Só ela as compreendia. Conseguia, contudo, concretizar o seu sonho. Agora o mundo era seu e poderia contar os sonhos e poderia fixar no papel as letras com que ele se escreve.
Sorriu. Pousou o lápis. E ficou a contemplar a imensidão que se abria naquela folha de papel que tirara da impressora do pai.
Havia a letra. Havia o sonho. Havia o bailado dos dois girando em sinfonia.
Talvez fosse o barulho do avião ou da nave espacial dos sonhos.
E uma gargalhada estridente soltou-se da criança.
HFM - 18 de Janeiro de 2011