quarta-feira, 18 de maio de 2011

Monólogo junto ao mar


foto de HFM



Não percas tempo
ouve apenas a voz
seja a do mar, do silêncio
ou o grito do ar
fica atenta
não te distraias do momento
do sol brilhando no mar
do vento que te contraria
do recorte fino da folha
que pressagia a sombra
aprende a respirar
dedica tempo ao tempo
quando um trejeito
parecido com um sorriso
te despertar
persiste
algures, perto ou distante,
o labirinto libertar-te-á.




HFM - Ericeira, 6 de Maio de 2011



segunda-feira, 16 de maio de 2011

cais colunas



Olhares.com


Os sons misturam-se com o calor e ensandecem os sentidos. Fervilha no ar a respiração desprotegida. Um sufoco. Como uma agonia. Nas arcadas corre a brisa. Lugar de sombras e frescuras. Sôfrego, o olhar procura. Bem perto descobre a placidez do rio e a brisa que o guia. Bom porto, dirão alguns. Ainda o calor, dirão outros. Mas o rio sorri e sabe que naquele cais as colunas são o corolário de todos os aflitos. O lugar aonde se chega. O lugar de todas as partidas.

Até as gaivotas sorriem.




HFM








sexta-feira, 13 de maio de 2011

Na Quinta dos Lilazes


o caminho era a álea do silêncio
que as árvores ancoravam
diluídas pelos verdes


nas amarras sem ferros me entrelacei.



HFM - Lisboa, 10 de Maio de 2011



terça-feira, 10 de maio de 2011


a mão tecia na pele
um arrepio
como uma renda
onde por entre os buracos
gesticulava a ternura

um infinito de amanheceres.

HFM - 3 de Maio de 2011



domingo, 8 de maio de 2011



Era uma linha. Desnivelada. Percorrendo tramas. Incoerente. Vogando no espaço como um barco sem leme. Só os labirintos a podiam condicionar. Mas, porque eram labirintos, não se entendiam. E ela continuava. Expandia-se. Sem limites. Atípica. Entortando-se onde menos se esperava. Enfeitiçava-a os desnortes e a fuga. Ora lenta, ora numa corrida desenfreada. Neste desgoverno apenas um labirinto a percebeu. Lentamente, numa cadência sibilina, por entre as paredes que o rodeavam, assobiou uma melodia. Meia tresmalhada. Mas com ritmo. A linha estacou. O que seria aquilo? Inverteu o sentido. Rodopiou ao som da melodia. Bailou. Não sabia o que aquilo era mas encantava-a. No ar foi desenhando estranhos ângulos. Figuras desconhecidas. Uma amálgama de volumes e de traços. Entrecruzados. Direitos. Tortos. Assimétricos. Finos. Grossos. Entrecruzados. Tonta, parou. Abeirou-se da parede e, sem pensar, entrou por ela adentro.

Contam os velhos que nunca mais foi vista. Só do assobio, em surdina, a duas vozes, se continua a ouvir a melodia.



HFM - Lisboa, Maio 2011







quinta-feira, 5 de maio de 2011

Dos tempos




dir-te-ei dos dias
quando as horas se esquecerem
de se encontrar
então
na ausência do tempo
serei o raio que antecipa o trovão
o ar denso e sufocante
e a calmaria do devir.

quando as horas não fizerem sentido
sentrar-me-ei face ao mar
sorrirei às ondas
abraçarei a espuma
que reflectirá
a praia em semi-círculo
onde à noite se ouve um piar marinho
e na visão periférica se descobre
a sombra dos pássaros extinguindo-se.



HFM - Lisboa, 19 de Abril de 2011


terça-feira, 3 de maio de 2011

Diurnos


No seu trabalho quotidiano o mar bate ferozmente nas antigas lagosteiras cujo esqueleto sobressai como uma moderna instalação a desafiar um Beuys ou um Christo que aqui nem precisaria de roupagens, a própria espuma encarregar-se-ia de desdobrar pregas, pinças, plissados e toda a amálgama de formas de que o panejamento é feito.

Assim se oferece a natureza na sua inapagável força que, felizmente, nenhum homem consegue dominar.



HFM - 28 de Abril de 2011 - Ericeira



Nota: Estas palavras constam do trabalho gráfico - em formato reduzido - que ando a fazer na Ericeira e que deixo aqui apenas o apontamento do esqueleto das antigas lagosteiras.



domingo, 1 de maio de 2011

Life, Legend, Landscape - na Courtauld Gallery



A belíssima exposição que se encontrava patente na Courtauld Gallery.



Do folheto



As seguinte fotos estão fracas, tiradas com telemóvel, e num ambiente com pouca luz.

Gostei de ver expostos esses dois diários gráficos.

A outra fotografia é de uma aguarela de Ruskin da Mer de Glace dos Alpes e que me impressionou pela forma como o gelo está tratado. Infelizmente a qualidade é muito fraca.










quinta-feira, 28 de abril de 2011




Quando o eco decretou silêncio
o medo emudeceu as vozes
e dos campanários não saiu som
só o rio indolente prosseguia
num remanso sem foz
que nenhum mar engolia.

No súbito silêncio
só o rio e a cidade em uníssono
sorriam alargando histórias
numa lenga-lenga de luz e magia.

Por um momento Lisboa ergueu-se
nas suas múltiplas colinas.



Lisboa, 26 de Abril de 2011


terça-feira, 26 de abril de 2011


o mistério é o suco do labirinto
como o sal para o mar
assim percorro as sílabas
lúcidas e frágeis
do teu amor

a eternidade do momento fugaz.

HFM - 4 de Fevereiro de 2011