segunda-feira, 30 de maio de 2011

Diurnos




Como sanguessugas mordem-me nas canelas os dias desalinhados. Nem a chuva os lava nem a vastidão do mar cumpre a solidão e perde-se no infinito. Há, nestes dias, uma melodia com falhas. Nem são notas dissonantes. Tão só o fragor desgovernado do desconhecido. Ao arrepio. De viés. Adormecendo nas rochas os limos da vida.

Só o mar sorri. Lembra-se dos corpos, dos náufragos e de tantos que ainda o procuram. Será insanidade?


HFM - Ericeira, 26 de Maio de 2011

sábado, 28 de maio de 2011

Entardecer


Hoje entardeci mais despida do que antigamente.
Não sei se pelos bosques tão devastados
se pelas bagas que colheste do meu dorso.
À tua sombra todos os amores são silvestres,
só as amoras são frutos impossíveis.








Econtrado no blogue do meu amigo António Baeta
Catarina Nunes de Almeida
Prefloração
Quasi, Vila Nova de Famalicão 2006
A Metamorfose das Plantas dos Pés
Deriva Editores, Porto 2008
Bailias
Deriva Editores, Porto 2008
Poesia 21
Parceria Biblioteca Municipal de Silves / Escola Secundária de Silves

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sem título



nos carris enviesava-se a fuga
o silvo do comboio era a nota dissonante


no horizonte os deuses aguardavam.



HFM - Lisboa, 5 de Maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Na Casa das Histórias



do blog Queridas Bibliotecas




No traço a condução do olhar
na cor o volume
na sugestão o guião
e os códigos implícitos.
Assim li a arquitectura
e todos os segredos
que Paula Rego guarda
nas múltiplas histórias que libertam
todos os seus fantasmas
- tesouros que o tempo prolongará!





HFM - Lisboa, 20 de Maio de 2011



sábado, 21 de maio de 2011

Sem título

dir-me-ás do silêncio
o que restar da dor

só uns olhos límpidos o ouvem.


HFM - Lisboa, 20 de Maio de 2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Monólogo junto ao mar


foto de HFM



Não percas tempo
ouve apenas a voz
seja a do mar, do silêncio
ou o grito do ar
fica atenta
não te distraias do momento
do sol brilhando no mar
do vento que te contraria
do recorte fino da folha
que pressagia a sombra
aprende a respirar
dedica tempo ao tempo
quando um trejeito
parecido com um sorriso
te despertar
persiste
algures, perto ou distante,
o labirinto libertar-te-á.




HFM - Ericeira, 6 de Maio de 2011



segunda-feira, 16 de maio de 2011

cais colunas



Olhares.com


Os sons misturam-se com o calor e ensandecem os sentidos. Fervilha no ar a respiração desprotegida. Um sufoco. Como uma agonia. Nas arcadas corre a brisa. Lugar de sombras e frescuras. Sôfrego, o olhar procura. Bem perto descobre a placidez do rio e a brisa que o guia. Bom porto, dirão alguns. Ainda o calor, dirão outros. Mas o rio sorri e sabe que naquele cais as colunas são o corolário de todos os aflitos. O lugar aonde se chega. O lugar de todas as partidas.

Até as gaivotas sorriem.




HFM








sexta-feira, 13 de maio de 2011

Na Quinta dos Lilazes


o caminho era a álea do silêncio
que as árvores ancoravam
diluídas pelos verdes


nas amarras sem ferros me entrelacei.



HFM - Lisboa, 10 de Maio de 2011



terça-feira, 10 de maio de 2011


a mão tecia na pele
um arrepio
como uma renda
onde por entre os buracos
gesticulava a ternura

um infinito de amanheceres.

HFM - 3 de Maio de 2011



domingo, 8 de maio de 2011



Era uma linha. Desnivelada. Percorrendo tramas. Incoerente. Vogando no espaço como um barco sem leme. Só os labirintos a podiam condicionar. Mas, porque eram labirintos, não se entendiam. E ela continuava. Expandia-se. Sem limites. Atípica. Entortando-se onde menos se esperava. Enfeitiçava-a os desnortes e a fuga. Ora lenta, ora numa corrida desenfreada. Neste desgoverno apenas um labirinto a percebeu. Lentamente, numa cadência sibilina, por entre as paredes que o rodeavam, assobiou uma melodia. Meia tresmalhada. Mas com ritmo. A linha estacou. O que seria aquilo? Inverteu o sentido. Rodopiou ao som da melodia. Bailou. Não sabia o que aquilo era mas encantava-a. No ar foi desenhando estranhos ângulos. Figuras desconhecidas. Uma amálgama de volumes e de traços. Entrecruzados. Direitos. Tortos. Assimétricos. Finos. Grossos. Entrecruzados. Tonta, parou. Abeirou-se da parede e, sem pensar, entrou por ela adentro.

Contam os velhos que nunca mais foi vista. Só do assobio, em surdina, a duas vozes, se continua a ouvir a melodia.



HFM - Lisboa, Maio 2011