segunda-feira, 6 de junho de 2011

Cabotagem





quando o mar se apresentar
incorporará sal e lendas
ainda a forma
dele ressaltarão os cânticos
das ondas e das criaturas
que o habitam
aí farei chão e casa
e o local de todos os concílios.
serei barco
e na lenta cabotagem da deriva
aportarei no meu farol
onde captarei o infinito.





HFM - Lisboa, 25 de Maio de 2011



sexta-feira, 3 de junho de 2011








Lembras-te do cabo por onde rasava o nosso olhar? Perto da serra e do mar. Na fímbria das mãos e do frio. Onde o sol era rubro e o poente um acaso. Recordo as sílabas. As palavras. E, como uma promessa, deixo que o sol recorte, em contraluz, o meu perfil. Estático. Presente. Presença. Uma rajada de vida no mimetismo do instante.






HFM - Lisboa, 21 de Fevereiro de 2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Citando

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.


Clarice Lispector

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Diurnos




Como sanguessugas mordem-me nas canelas os dias desalinhados. Nem a chuva os lava nem a vastidão do mar cumpre a solidão e perde-se no infinito. Há, nestes dias, uma melodia com falhas. Nem são notas dissonantes. Tão só o fragor desgovernado do desconhecido. Ao arrepio. De viés. Adormecendo nas rochas os limos da vida.

Só o mar sorri. Lembra-se dos corpos, dos náufragos e de tantos que ainda o procuram. Será insanidade?


HFM - Ericeira, 26 de Maio de 2011

sábado, 28 de maio de 2011

Entardecer


Hoje entardeci mais despida do que antigamente.
Não sei se pelos bosques tão devastados
se pelas bagas que colheste do meu dorso.
À tua sombra todos os amores são silvestres,
só as amoras são frutos impossíveis.








Econtrado no blogue do meu amigo António Baeta
Catarina Nunes de Almeida
Prefloração
Quasi, Vila Nova de Famalicão 2006
A Metamorfose das Plantas dos Pés
Deriva Editores, Porto 2008
Bailias
Deriva Editores, Porto 2008
Poesia 21
Parceria Biblioteca Municipal de Silves / Escola Secundária de Silves

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sem título



nos carris enviesava-se a fuga
o silvo do comboio era a nota dissonante


no horizonte os deuses aguardavam.



HFM - Lisboa, 5 de Maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Na Casa das Histórias



do blog Queridas Bibliotecas




No traço a condução do olhar
na cor o volume
na sugestão o guião
e os códigos implícitos.
Assim li a arquitectura
e todos os segredos
que Paula Rego guarda
nas múltiplas histórias que libertam
todos os seus fantasmas
- tesouros que o tempo prolongará!





HFM - Lisboa, 20 de Maio de 2011



sábado, 21 de maio de 2011

Sem título

dir-me-ás do silêncio
o que restar da dor

só uns olhos límpidos o ouvem.


HFM - Lisboa, 20 de Maio de 2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Monólogo junto ao mar


foto de HFM



Não percas tempo
ouve apenas a voz
seja a do mar, do silêncio
ou o grito do ar
fica atenta
não te distraias do momento
do sol brilhando no mar
do vento que te contraria
do recorte fino da folha
que pressagia a sombra
aprende a respirar
dedica tempo ao tempo
quando um trejeito
parecido com um sorriso
te despertar
persiste
algures, perto ou distante,
o labirinto libertar-te-á.




HFM - Ericeira, 6 de Maio de 2011



segunda-feira, 16 de maio de 2011

cais colunas



Olhares.com


Os sons misturam-se com o calor e ensandecem os sentidos. Fervilha no ar a respiração desprotegida. Um sufoco. Como uma agonia. Nas arcadas corre a brisa. Lugar de sombras e frescuras. Sôfrego, o olhar procura. Bem perto descobre a placidez do rio e a brisa que o guia. Bom porto, dirão alguns. Ainda o calor, dirão outros. Mas o rio sorri e sabe que naquele cais as colunas são o corolário de todos os aflitos. O lugar aonde se chega. O lugar de todas as partidas.

Até as gaivotas sorriem.




HFM