quinta-feira, 21 de julho de 2011

Na lenta agonia de uma prece



HFM - Chiostrino de Fiesole




Quando o silêncio assobia no ar
como se de antanho se tratasse
oiço uma composição de Liszt
remetendo-me para os claustros
onde os passos sobrevivem
nas memórias
tal como a água das cisternas
regando o deserto
e esse lugar sem nome
onde foi presença a claridade.


HFM - Ericeira, 16 de Junho de 2011


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Na noite enluarada de vento


Tu não me retinhas
era a música procurando
a solidão

um arco sem violino
um rio em aflição.

HFM - Julho 2011



quinta-feira, 14 de julho de 2011


o som vago do mar no ouvido do búzio partido
a serenidade da tarde caindo no Cabo
as nuvens adensando-se no horizonte desmanchado
o silêncio protegendo as ansiedades

assim se perfilam as energias
nesta praia onde se congregam memórias.

HFM - Ericeira, 2 de Abril de 2011



segunda-feira, 11 de julho de 2011

Quando a insónia me desnorteia


Ouvi o assobio
clareando a noite
e os segredos
de uma madrugada errante

uma súplica
onde se projectava
o eco dos meus labirintos

sopro indecifrável
percorrendo do tempo a pauta

onde assento os códigos indemonstráveis.



HFM - Lisboa, 14 de Julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011




nem Ursa nem Adamastor
só o mar se enleia na bruma
rente, rente à costa e ao Cabo
como numa súplica
ou num simples desabafo
como um castigo

persistente continua
como o Cabo
como a Ursa
como o Adamastor
num refresh de memória
ou apenas – o ciclo vital

breviário sempre repetido!




HFM - Ericeira, praia do sul, 21 de Março de 2011


terça-feira, 5 de julho de 2011

Da pequenez consentida

Deixemo-los ficar a ruminar
na sabedoria - a deles -
a que julgam ser sabedoria
humildemente dedilhemos as palavras
as nossas
e apenas pela poesia
deixemos que o poema respire.



HFM - Julho 2011

domingo, 3 de julho de 2011

Sem título





quando a espuma não pacifica
há como um silvo
azucrinando
a distância

momentos esfarrapando a inocência.







HFM - Maio 2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

No dia do teu nascimento

Na praia já se esgaçou o pano
nunca a memória
aqui te vejo - olhos de maresia -
conjugando o sorriso como arma
há anos - longos - que não te sei
mas a ti regresso
quando na pele habitam os fantasmas
que rasgam na derme os traços
da ausência

obrigada, mãe,
por me teres querido.


HFM - 30 de Junho de 2011

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sem título



da Chikurin Gallery




Quando a linha se torna forma
há do olhar a caligrafia

interioridade que o papel confina.


HFM - Lisboa, 20 Junho de 2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011



City of Words, litografia de Vito Acconci



Soletro-as. Lenta, lentamente. Como quando engasgados, mastigamos a saliva. Mastigo-as em cada letra desirmanada quando não encontro o ritmo, quando não as alinho de forma audível dentro de mim, quando, demasiado explícitas, ferem a imaginação, quando desesperada as rasgo, as encolho, as risco numa fúria que é mais ternura, numa febrilidade que, mais não é que temor de as perder, de me escaparem na velocidade com que me vêm à cabeça e que o traçado da caneta não consegue acompanhar.

Assim me são as palavras. Letras que conjugo e declino formando com elas pequenos ou grandes comboios a que convencionámos chamar de palavras. Não gosto de todas. Amo, à loucura, algumas. Mas o difícil está em agrupá-las. Em sequenciá-las. No nó das curvas da frase encontrar o nicho onde se tornam únicas. Nas veias do sentido apurar o implícito. Essas, acarinho-as e, quando o consigo, há em mim, como que um concerto de carrilhões de Mafra ecoando nos vales e no imaginário.

Cantatas e harpejos na densidade viva e inquebrável de cada palavra. Única.

HFM - Maio 2011