domingo, 20 de novembro de 2011




Entre o tempo e as palavras me debato. Um diálogo sem nexo que desune as pontas onde oscilo. Sei que só nas palavras posso interferir. Crio então com elas monólogos onde me retalho em múltiplos significados e em inúteis metáforas. Nesse aparente caos me compreendo. Só aí, elas ganham volume e textura como um ser que se cria.

Este é o mistério das palavras que o autor enforma e deforma, se e quando lhe faz sentido.


HFM - 19 de Novembro de 2011

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A marca deixo-a nos dias
como uma prece sem liturgia
um lamento sem sílabas
uma tela sem cor
onde assento o indizível
e assim me cumpro.





HFM - Lisboa, 14 de Dezembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011







Traços esfarrapados envolvem na chuva a manhã. Ainda faltam os cânticos com que a trovoada tem povoado a cidade. Farrapos do tempo acinzentando no dia o tempo da vida.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Estive a ler na Ler a conversa entre George Steiner e António Lobo Antunes e ao fazerem referência a este soneto resolvi ir repescá-lo e relê-lo, há muito que não lia nada de Francisco de Quevedo.


E já agora aproveito para assinalar esta data curiosa 11-11-11





RETIRADO EN LA PAZ DE ESTOS DESIERTOS



Retirado en la paz de estos desiertos,
con pocos, pero doctos libros juntos,
vivo en conversación con los difuntos
y escucho con mis ojos a los muertos.


Si no siempre entendidos, siempre abiertos,
o enmiendan, o fecundan mis asuntos;
y en músicos callados contrapuntos
al sueño de la vida hablan despiertos.


Las grandes almas que la muerte ausenta,
de injurias de los años, vengadora,
libra, ¡oh gran don Iosef!, docta la emprenta.


En fuga irrevocable huye la hora;
pero aquélla el mejor cálculo cuenta
que en la lección y estudios nos mejora.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011



imagem retirada daqui www.hongkiat.com




Naquela linha difusa havia um vibrar intangível que fazia ondular a cor quase difundindo-a como num arco-íris. Quase um lamento. Quase um grito. A fantasia de outro olhar. Performativo.

Tão só a necessidade de ver cor para lá desta chuva e do cinzento das incertezas em que vivemos.

Outro mundo. Onde a cor pode ser o farol que alumia a noite de todas as tempestades.





HFM - Lisboa, 8 de Novembro de 2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011



Importas-te que te fale da suavidade dos dedos
quando a pele em surdina
sustêm a respiração dos poros
e o tempo se detêm?

correm as ondas ao arrepio do vento.



HFM - Lisboa, 6 de Novembro de 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cidade Romana de Ammaia




Porque o silêncio é confluência
aí reuni as sinergias

petrifiquei-as em Ammaia.



HFM - Castelo de Vide, Outubro de 2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Interrogando-me




No silêncio da manhã
a dúvida
a eterna
pessoana e intrínseca
seca como estas canas
abanando ao vento
junto ao mar
não o mar de Durban
tão pouco o mar salgado
português
apenas o reflexo do sonho
a manta de retalhos
acobertando o sótão da memória
onde instalei a dúvida
socrática.




HFM - Ericeira, Outº 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011



da net nome e data na própria fotografia




a tua falta soa-me a teorema. perfeito. indestrutível e, contudo, vazio. sem aplicação prática. talvez um dia quando a vida for pó, num qualquer olimpo, ele faça sentido. agora, aqui, é vazio. o sublime não se acolhe no demonstrável. sou nómada dos impossíveis. prefiro o rosto à máscara. no local sem nome onde, um dia, julguei clarear o divino. do teorema não quero nem o enunciado. a demonstração é uma aborrecida cadeia de códigos. gosto da simplicidade dos rios. e da tessitura que vagueia sem freios.


HFM - Lisboa, 2011




quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Silence is the name

nada
só o ocaso
na textura das mãos
e do coração
só o pássaro voando
junto à praia
como numa tira
de Hugo Pratt

lá longe, onde estejam,
Corto Maltese e o pássaro sorriem

eles sabiam
o horizonte era memória
miragem de silêncio
sem nome.




HFM - Outubro 2011