domingo, 31 de outubro de 2010


Patagónia-Cerro Torres



Sangue, sol, silêncio. Paz de ar rarefeito. Reflexo aguado que nenhuma aguarela imita. Lugares inacessíveis. Por isso preservados. A sabedoria da pedra e do olhar que reaprende a ver.


HFM - Lisboa, 28 de Outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Il capolavoro


Desdobra-se na visão a paisagem
um simples olhar
fino e profundo
olhar interior
atónito e aberto
fio condutor das culturas esquecidas.

Acompanhando o olhar a mão
gesticulando no vazio
traços etéreos sem suporte nem médio
uma ausência e a profundidade
um olhar para além da visão
a lente perfeita na abertura correcta


assim se escutam as palavras na tela.


HFM - Ericeira, 15 de Setembro de 2010



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sem título




foste-me


raiz do nada
onde o infinito se prende.





HFM - Ericeira, 9 de Setembro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Reaprendendo a Mitologia





Quando as tardes envelhecem mais cedo
guardam-se nos labirintos as memórias
e o desgaste do galope do tempo

linho envolvendo a tenacidade
quando o mar empalidece o discernimento
confundindo azul e universo

aí reencontro o rasgo, o grito, o impulso
concentrando-me na perenidade do transitório

rompendo o ar com um uivo rouco e dorido
sem norte nem clausura

como se as Parcas me tivessem escolhido.


HFM - Lisboa, 20 de Outubro de 2010



quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Regresso

Apenas dois apontamentos retirados do caderninho que sempre me acompanha. Não sei o que faço ao tempo mas, cada vez mais, ele escorre rapidamente e eu tenho menos tempo para o apanhar em palavras. Pelo contrário cada vez ele escorre mais lentamente dentro das recordações.


1º apontamento

Não te direi do cerúleo que cobre o infinito - nele te procuro nos espasmos que a vida engasgadamente nos oferece - farrapos de céu que algum louco desenhou.

Algures no céu a caminho de Milão - Outº de 2010


2º apontamento

Início de outro dia - Milão, 2 de Outº. Vou visitar o meu amigo e, desta vez, com hora marcada! Tenho de me ir arranjar Leonardo espera-me!


terça-feira, 28 de setembro de 2010



No silêncio recolho as expectativas. Tento esvaziar-me. Só assim, depurada, estarei aberta a todas as emoções e descobertas. Num canto, olharei para lá dos turistas e das máquinas fotográficas dos japoneses e, como em oração, esperarei que essa cidade se continue a desvendar. Lenta. Lentamente. Ao sabor de cada nova visita. De cada novo olhar.


Até breve Lisboa, vou ali à tua concorrente - Firenze.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

só as palavras podem completar o que não se compreende
nelas encontro a liberdade que os amantes não permitem
a aurora do sussurro indefinido que ainda é gaguez
a ternura que alguém não conseguiu selar
o sangue que o mar aparta no fulgor do farol esquecido


poeiras do quotidiano que a memória arrefece.


HFM - Ericeira, 10 de Setembro de 2010

domingo, 26 de setembro de 2010

Per te





CONJURA DE SENSIBILIDADES

(ouvindo o concerto de Mozart pela orquestra filarmónica de Berlim dirigida por Pierre Boulez sendo solista Maria João Pires)


Leve, levitava
num som interior
quase etérea dessacralizada
num mundo outro, sem penumbras.
Os lábios - sábios domadores do compasso -
antecediam promessas
visualizavam harmonias
e, sob as mãos de Pierre Boulez,
sem batuta,
organizavam-se sons, que escorriam,
impetuosos puros vibrantes
das cúpulas e colunas
do Mosteiro dos Jerónimos.
Ao fundo, desfocado em bruma
- como D. Sebastião -
Camões pensou
que os dedos daquelas mãos,
femininas e rudes,
tinham dobrado o Bojador.

Depois, adormeceu e pacificou.


HFM - Lisboa, 1 de maio de 2003


Agradeço ao meu amigo Eduardo Graça que me deu a conhecer o vídeo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010


dir-te-ei dos lábios ressequidos
no fragor da revolta
quando o mar se esconde
na secura da baixa-mar

aí se ouvem os ocasos
e o cântico dos náufragos
sem retorno

areias de equinócio
engolidas pelas ondas


ao largo afoga-se um bote.



HFM - Lisboa, 20 de Setembro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sem título



Quando o silêncio é um grito
e a ave caiu exausta


só o pavio brilha.




HFM - Lisboa, 20 de Setembro de 2010