sexta-feira, 16 de março de 2012

Interpretando-me



Escaparam-se-me os pensamentos
na dialéctica das palavras
no sentir me quero
quando as cores se esbatem
e os cheiros se ampliam
num deserto sem areia
completarei o cenário
percorrendo a mise-en-scène
que à vida subtraí
metade de mim
num caleidoscópio de emoções
toda inteira
nas palavras que não pronuncio.

Lisboa, Março de 2012


quarta-feira, 14 de março de 2012

António de Oliveira Salazar

Num passeio com Fernando Pessoa feito pelo Centro Nacional de Cultura soube, pela primeira vez, da existência deste poema que não resisto a colocar aqui.


António de Oliveira Salazar


poema de Fernando Pessoa, anos 30



António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular…
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido.
É o sentido que tudo isto tem.

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…

Coitadinho
Do tiranozinho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começaram
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiranozinho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas, enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiranozinho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

(extraído da obra; Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa, Vol. 1, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1986, págs. 578-579.)


segunda-feira, 12 de março de 2012

Notas



Disse-te da pele
e ficaste memória
lembrança de mar e cidade
apátrida de mim
no sopro do infinito

lenta, como uma prece,
viro-me ao avesso do sentido.

HFM - Março 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

Sem título

Desaprendi
da vida a tessitura

do mar soltam-se cânticos!

HFM - Março 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

Hoje apetecia-me estar aqui




domingo, 4 de março de 2012


da net


Rasando o embate das palavras sem sentido. No silêncio de mim. Na parceria das inocências. E na tangível liberdade das escolhas.

HFM - 3 de Março de 2012

quinta-feira, 1 de março de 2012

Quando a fotografia fala por si


tirada no Parque das Nações

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Soletrando-me



Não te digo porque já não penso
vivo como se me apresenta a vida.
Aceito-a? Não, mas vivo
porque há sol, mar, vento, palavras, música
porque dos estranhos faço amigos
e quando os amigos me estranham, afasto-me
a vida é curta, Almada sabia-o,
e de que serve viver o que não tem sentido?
Já me roí de pensar
agora como que desleixo essa agonia
solto as amarras, liberto a pele
e há tanto mar...
e a lenda fala-me de outras terras
de caminhos sinuosos onde se respira.

Encho o peito de ar
e passo a passo
comigo viajo de braço dado ao futuro
na lâmina dos meus objectivos.

HFM - Lisboa, 25 de Fevº de 2012


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Diurnos


HFM


Com a água rego as tréguas na calma doçura de um fim de tarde. Com a clareza da ternura faço um voto. Secreto. Inatingível. Como memória feita renda por onde se escapam vivências. Nos cheiros que o passado aporta reconheço o mar, a casa e a criança por devir. Não quero votos. Na dança do absurdo corrijo os fios em que me enredo. Abro a janela. No infinito reconheço o ponto de fuga. Como um post scriptum.

HFM - Lisboa, 18 de Fevereiro de 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Citando

En Egipto se llamaban las bibliotecas el tesoro de los remedios del alma. En efecto, curábase en ellas de la ignorancia, la más peligrosa de las enfermedades y el origen de todas las demás.

Jacques Benigne Bossuet