sábado, 5 de novembro de 2016


Sentaram-se no tempo os algoritmos; desconfiei. O sopro não vem do levante e a imaginação não encontra alicerces. São-me estranhas as sendas desgastadas e, na bússula, o norte esgueira-se para sul. Já não desfio o baralho, qualquer carta serve e talvez a pior me aponte a direcção do mar. Estarei, então, em casa e o sangue do capitão tornará a fazer vibrar o olhar da criança que fui e que se refugia em mim, como nessa história que, nas furnas, na Ericeira, aí com os meus sete anos, resolvi inventar. Daí até agora a vida salpicou-me de mistérios, quase oráculos e nunca lhes fechei a porta, mesmo quando sabia que a porta era fictícia. Aprendi com o erro mas, felizmente, contínuo a errar - sinal de que ainda não parei no aterro dos conformados.
 
HFM - 04. 11. 2016
 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Boas Festas




A todos os amigos e a todos que aqui venham desejo Boas Festas.

Junto um texto de Miguel Torga escrito em S. Martinho de Anta a 24 de Dezembro de 1960 que, apesar de antigo, é ainda tão actual.



Natal. Já tudo dorme, e só eu, na casa, rumino ainda as rabanadas. Que significam elas afinal? O mundo estará realmente povoado neste momento por uma nova esperança? Não se ouviram passos auspiciosos ao dar da meia-noite, nem houve. com certeza, parto divino em nenhuma maternidade ou estábulo.  Mas sabe-se  que os grandes enviados chegam sem ruído, que o nascimento de que se trata é doutra natureza, que a luz esperada tem de acender-se dentro de nós. Por isso, quando digo mundo penso nos meus próprios limites, e neles procuro descortinar os sinais concretos da maravilhosa presença. Timidamente, aflora-me aos lábios uma palavra, que só de ser balbuciada aviva a chama da lareira. Amor - repito, alvoraçado. Mas não vou mais longe. Desalentadoramente, a boca, como um sino sem alma, deixa de vibrar. É que, por artes de não sei que espírito invisível e demoníaco, começa a desfolhar-se diante dos meus olhos um calendário de dois mil anos. E, nele, a palavra mágica, que impulsivamente me saiu da alma, escrita em vão duas mil vezes...

sábado, 21 de março de 2015

No dia da poesia




Há interregnos de pão e água
há solstícios de abundância
 
só o mar, incansável, continua a procurar a praia.


HFM - 21 de Março de 2015 - Dia da poesia.

domingo, 1 de março de 2015

Numa manhã acinzentada


Quando acordada divago
um coro harpeja no meu inconsciente
uma cantata incompreensível
onde flutua o sol
e o mar se alonga no infinito.

Carente, percorro sem sentido
os labirintos desmesurados
onde os atrevimentos são possíveis.

Doloroso é o regresso a mim
encarando a certeza das memórias
que o tempo e o cansaço foram destruindo.

Assim se tecem as catarses.


HFM - Lisboa, 28 de Fevº 2015

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

 


Com esta dupla, página feita em dias diferentes, desejo a todos o melhor para 2015.

Até para o ano!

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

 
 


Apesar do silêncio a que me tenho votado ficam aqui as minhas Boas Festas.

domingo, 9 de novembro de 2014




As lágrimas não têm regras, tanto são sorrisos de alma como amargas rugas que nela deixam os outros e a vida.
As lágrimas são um teclado desordenado e nunca afinado.
As lágrimas são intemporais.
As lágrimas reflectem o biorritmo de uma vida.
As lágrimas são o escadote por onde, desorganizadamente, aprendemos que há valores universais. Eu sei que os valores estão fora de moda mas não estão fora de mim.
As lágrimas são a enxuta simplicidade do sentimento.
 
Lisboa, 9 de Novº de 2014 - HFM

sábado, 5 de julho de 2014



quando as palavras decidem ter vida
só elas amornam a mão
numa tessitura de labirintos
e silêncios

as palavras criam-se nas letras
e eu tento agregá-las
como um pastor recolhendo o rebanho
mas elas teimam, saltam, dissolvem-se
na liberdade de uma caligrafia ausente...


claros rasgões de inocência
na penumbra dos dias de insanidade.

HFM - Ericeira, 4 de Julho de 2014
 
 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

 
 


Um manto de silêncio
percorre o frio da manhã

ausentam-se as fragilidades.


 
 HFM - Lisboa, 2 de Fevereiro de 2014
 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Sem título



Os hibiscos olhavam-me
eram na noite um foco de luz
como a criança nos braços da mãe
aprendendo a vida.

Lisboa, 31 de Dezembro de 2013