terça-feira, 4 de junho de 2013

Diurnos



da net

Olhava  a sombra. Melhor as sombras. Espelhos acentuando os espaços. Esgares que a luz inventava. Oceanos de contrastes. Na sombra projectada  iniciam-se as histórias. Pelo menos comigo. Desde esses tempos recuados da infância quando, na casa de Campo de Ourique, na  sesta, então, obrigatória, eu me exilava do sono para, nas silhuetas invertidas que se projectavam no tecto depois de transporem uma nesga entre a janela e as portadas de madeira, iniciar as histórias que contava a mim própria.

Hoje, no sol que finalmente se apropriou destes dias de Junho, as sombras assombraram-me. Alargaram, na memória, o passado e, como num exercício de descodificação, preencheram no presente o seu vazio. Toques. Sobreposições. Desabafos. Certezas. Tudo isto se espraiou nas sombras com a força com que este mar da Ericeira nos mimoseia. Diga-se, em abono da verdade que, hoje, excepcionalmente, o mar até está de “patos”!

Voltemos às sombras. Às sombras que unem – fios condutores da vida – entre a luz e a sombra e todos os cambiantes que circulam nos seus interstícios.

Encostei o olhar ao mar. Deixei-me seduzir pelo canto dos búzios. No remanso da maré adormeci a revolta e, outra vez criança, pensei que a história que a sombra me iria contar era melhor que toda a luz fictícia deste reino desmiolado em que teimamos em viver.

Contudo, a sombra vinha vazia. Apenas sombra. Um escuro na luminosidade. Um silêncio duro e sem eco. Uma vaga a que faltava a espuma.

Tinha-se partido o fio condutor, só podia ser. Ou seria cansaço? Meu? Ou da sombra?

No torpor de um calor envergonhado não me apeteceu questionar-me. Encolhi os ombros. Encolhi a sombra. Encolhi mais um pouco o esgar dos dias. Já vai sendo habitual. Como uma litania. Um advérbio de modo. Ou será de lugar? O meu verdadeiro lugar na sombra.

Por uma tarde evadi-me. Ausentei-me. E não me dei mal.

 

Ericeira, 4 de Junho de 2013

6 comentários:

Luis Eme disse...

também gostava desse "mundo de aparências", transformado pela luz que vinha lá de fora...

abraço Helena

ad astra disse...

melancolia embalando a tarde

sem "sombra" de dúvida

Mar Arável disse...

Quando as sombras luzem

há sempre um sol
que as projecta
para nos mover

jrd disse...

Um texto fantástico! Quem mais consegue, assim, encostar o olhar ao mar?!

António Baeta disse...

Serão as sombras as responsáveis pela nostalgia da autora? :)

heretico disse...

uma ténue linha entre as sombras (da memória) e o desenho do dias - na litania das ondas.

belíssimo, pois.