segunda-feira, 19 de abril de 2010

Quando a insónia se transforma em palavra

HFM

Percorro, no nevoeiro áspero da negação, a estrada interior onde se situam as utopias. As minhas, as de Piranesi e as de tantos outros cuja sede nunca se sacia. Conjuro todas as forças, os silêncios, as memórias e, passo a passo, interrogo-me, procuro, fendo, prossigo numa desesperada viagem sem caminho e de retorno inviável. A partida e a chegada confundem-se com o percurso. Não há alimento que sacie o grito ou a revolta. Em mim a música não é heróica e a melodia está suspensa na clave inexistente, melhor, na clave destruída onde apagaram todos os símbolos. A chave que faria daquele caos música perdeu-se no deserto onde a areia é movediça e as pedras calhaus onde os pés rasgam o sangue do mar vermelho de todos os sentires. A distância é ainda a miragem da cisterna só que da água não existe memória. Só sede. Os códigos ancestrais foram eliminados e temo que só os mortos ainda os decifrem.

Da corda resta o fio que nenhuma Ariadne segura. Também Teseu se acomodou e do Minotauro só as efabulações lhe dão sentido.

Resta o traço que, sendo linha, ainda sustém o precicpício.

HFM - Lisboa, 18 de Abril de 2010

7 comentários:

Ad astra disse...

o traço, que sendo linha

prende e amarra

puxa e segura

mesmo no balanço dos ventos contrários

Mar Arável disse...

Ainda resta a memória da água

por um fio

que se movimenta

para o mar

Belo texto

bons temposhein disse...

Belo Texto!
A vigília das palavras e dos símbolos.

addiragram disse...

Um traço elementar e essencial!

Escrita perfeita capaz de dizer os sinuosos caminhos da dor.

Um abraço, amiga.

Ana disse...

Eternamente buscando

e conseguindo

a perfeição das cousas...

maria manuel disse...

há caminhos interiores em busca de uma sede íntima, que nos são difíceis e nos fazem olhar precipícios. a helena poetizou-os muito bem.

beijo!

Luis Eme disse...

é a linha da vida...

abraço Helena