quarta-feira, 14 de março de 2012

António de Oliveira Salazar

Num passeio com Fernando Pessoa feito pelo Centro Nacional de Cultura soube, pela primeira vez, da existência deste poema que não resisto a colocar aqui.


António de Oliveira Salazar


poema de Fernando Pessoa, anos 30



António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular…
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido.
É o sentido que tudo isto tem.

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…

Coitadinho
Do tiranozinho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começaram
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiranozinho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas, enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiranozinho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

(extraído da obra; Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa, Vol. 1, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1986, págs. 578-579.)


9 comentários:

Maria disse...

Não conhecia. E vou levar. Pode fazer-me falta...

;)

António Baeta disse...

Também já o levei comigo. :)

jrd disse...

Um poema notável que vou guardar.
A importância das palavras dos outros -e que outros.
Obrigado

O Puma disse...

Não muito longe outros se perfilam

Pessoa sempre actual

mfc disse...

Vou guardá-lo que me pode fazer jeito... quem sabe?!

Ana disse...

Também não conhecia este sal e azar . Gosto e guardo .

Ad astra disse...

brilhante, como só o Mestre

Luis Eme disse...

já conhecia.

é um dos melhores retratos do tirano, Helena. ainda por cima poético e do Pessoa!

heretico disse...

tambem nao conhecia e vou roubar..

beijo