domingo, 8 de maio de 2011



Era uma linha. Desnivelada. Percorrendo tramas. Incoerente. Vogando no espaço como um barco sem leme. Só os labirintos a podiam condicionar. Mas, porque eram labirintos, não se entendiam. E ela continuava. Expandia-se. Sem limites. Atípica. Entortando-se onde menos se esperava. Enfeitiçava-a os desnortes e a fuga. Ora lenta, ora numa corrida desenfreada. Neste desgoverno apenas um labirinto a percebeu. Lentamente, numa cadência sibilina, por entre as paredes que o rodeavam, assobiou uma melodia. Meia tresmalhada. Mas com ritmo. A linha estacou. O que seria aquilo? Inverteu o sentido. Rodopiou ao som da melodia. Bailou. Não sabia o que aquilo era mas encantava-a. No ar foi desenhando estranhos ângulos. Figuras desconhecidas. Uma amálgama de volumes e de traços. Entrecruzados. Direitos. Tortos. Assimétricos. Finos. Grossos. Entrecruzados. Tonta, parou. Abeirou-se da parede e, sem pensar, entrou por ela adentro.

Contam os velhos que nunca mais foi vista. Só do assobio, em surdina, a duas vozes, se continua a ouvir a melodia.



HFM - Lisboa, Maio 2011







9 comentários:

carlos pereira disse...

Cara Helena;
Texto de uma riqueza criativa inexcedível.
Excelente. Gostei muito.
Parabéns.

Ad astra disse...

verdadeira "linha" melódica
de exemplar harmonia

jrd disse...

Excelente!
A linha da imaginação.

Ana disse...

Melodia que as palavras fazem ouvir. Guardo-a !

mfc disse...

A criação não tem limites.

Licínia Quitério disse...

Belo texto! Pode ouvir-se o assobio em surdina, a duas vozes.
Beijo.

Mel de Carvalho disse...

Em dédalos de memórias, todas as linhas são uma espécie de sereias que nos ancoram e, simultâneamente nos libertam para que, por um lugar só nosso, possamos entrar em reconhecimento de quem somos. Por vezes, HFM, não voltamos, ou, se voltamos, somos linhas de outras espessuras, de outro peso, de outras texturas...
É então o tempo de, à volta dos nossos pulsos, atarmos um fio a nós mesmos...
"E já é tanto".

Helena, é um enorme prazer lê-la. A minha gratidão por estes momentos e pela sua presença na minha "noite".

Mel

© Piedade Araújo Sol disse...

mas por vezes os velhos não sabem tudo...

belo texto e a foto tb.

beij

bao semana!

heretico disse...

vozes em surdina. cúmplices...
belo "desenho" de uma Melodia
(as)simétrica!...

beijos