
Não consta de roteiros a estrada
que persigo
dir-te-ei apenas que se situa
no nada acima do tudo
na confluência do agora
perdida no depois
no eco do antes.
Para além dos meus dedos
ela filtra-se na água
espalhando-se nos verdes
acolhendo os pássaros
os cruzeiros
e o acre ocre das montanhas.
Não te falei do mar
- onde principia e acaba –
pois do mar não se fala
ama-se.
Há também ruínas nesta estrada
e lendas e histórias
pontuadas por cânticos sagrados
que o firmamento ilumina.
Para além das ruínas há a imensidão
o tempo o espaço
e a ingenuidade de prosseguir.
Calei-me dos homens
tu conhece-los
e eu falo-te da estrada
e dos ciganos que me acompanham
das tendas que não se montam
- servem-nos de tecto as estrelas
e o vento embala as distâncias.
Falo-te da minha estrada
da luta e da esperança
e de tudo que nela aporta
na inconfessada promessa
deste verde mar –
paleta de contrários
em horizontes sem fim.
Que te chegue bem a carta
e o contochão dos passos
alicerçados no bordão da minha finitude.
Que estejas bem aí na cidade
enquanto percorro o tempo
no espaço desta estrada que invento
nas palavras que para ti crio.
No grito da gaivota a raiva do mar
e no meu sangue a força da estrada mais além.
HFM - Itália, nos campos da Bassa parmiggiana, 13 de Junho de 2003
14 comentários:
Belíssima, esta metáfora da vida e da procura!
Fabulosa, a aspiração, a busca! As palavras também!
Fabulosa!
Ligamos depois ;)
Carta, estrada, ponte...
"Falo-te da minha estrada
da luta e da esperança
e de tudo que nela aporta
na inconfessada promessa
deste verde mar –
paleta de contrários
em horizontes sem fim."
Um poema dentro do poema.
Beijos, Helena
Apareça
a procura que nos impulsiona. belo!
Estrada sem nome que cada um de nós tem que percorrer. Procurando,sempre. Um poema excepcional. **
épicos os caminhos da liberdade. que tão bem cantas. em tão belo poema.
beijo
Que linda estrada por onde nos trouxeste!
Meio-dia a meio do dia
Todo o tempo comigo
O fascínio do meio-dia
Ao sol do tempo antigo
Acende-se o meio-dia
Luz do clarão que sigo
À sombra do meio-dia
Por vezes não consigo
Distinguir no meio-dia
O que digo e não digo
27/11/2008
não, não é uma carta,é um verdadeiro mapa traçado em beleza
"e o vento embala as distâncias."
por isso, por tudo, um grande beijo
Porque quis ver um chão de Alentejo italiano?
que carta deliciosa, espantosa, lidíssima, Helena!
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