quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Escritos






Um soluço e uma pena habitam a memória neste dia de sol que invade a cidade. Parece que a nostalgia veio para ficar. Como um pregão. Ou uma fuga. Nesse soluço que mais parece uma falha de respiração. A luz está agreste e talvez ela o tenha construído como uma muralha. Abstracta. Mas é lúcida a nostalgia. Em diálogo comigo onde estou longe de estar k.o. Vou-lhe dando pasto. Vou-lhe avivando a memória. Contudo, recolho em mim, as imagens onde não quero navegar. “Navegar é preciso”!; é sim, meu amigo, mas há momentos em que a inacção se deve sobrepor, de preferência uma inacção tipicamente britânica – uma perfeita idleness.

Fica, então, essa pena embrulhada no soluço e a respiração do náufrago que parou de navegar.

“Tanto mar”!. A ele voltarei quando, encrespada a costa, os seus verdes se reflectirem no azul e pacificarem o soluço; então, permitirei que o veleiro se faça ao mar numa arriscada manobra torneando o cabo de todos os murmúrios.



HFM - Lisboa, 25 de Agosto de 2010


9 comentários:

António Baeta disse...

Consegues superar-te quando falas do mar.

Licínia Quitério disse...

Que magnífico texto. Como uma lâmina cortando as águas.

Um beijo.

Anónimo disse...

Restless

como mares e mares
tantas vezes por dentro o somos
(tens, além das palavras e das imagens, "os traços" da tua respiração)
(eu gosto, insisto em manter laços com a beleza; sítios de paisagem - há que tempos? há que cruzamentos?)
Bjs da bettips

Mar Arável disse...

De preferência

desgrenhado

para os azuis serem perfeitos

mfc disse...

Desfralde as velas... e olhe o horizonte.

Ad astra disse...

ancorado veleiro, aguardando maré de feição

...

jrd disse...

Belíssimo! 'A bolina' se escreve o mar.
Abraço

heretico disse...

belíssimo.

tecendo ondas de silêncio. como quem cultiva mares nunca navegados!

beijos

Ana disse...

Nostalgia necessária para o recolher de novos murmúrios.

Belíssimo, Helena !